sexta-feira, 13 de julho de 2012

Aos que não vão: Arianos, Geminianos, Capricórnios e Peixinhos

Cântico negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio

3 comentários:

  1. Parece que ele critica tudo o que possa definir, limitar e torná-lo igual. Prefere agir pelos impulsos! Porque a definição do que somos, não vem de uma vivência coletiva acomodada, que impõe, convidativa... e sim uma vivência interna, individual e desafiadora. Adorei o verso: "A minha vida é um vendaval que se soltou"

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  2. Me identifiquei com os versos:

    "Não sei para onde vou
    Sei que não vou por aí!"

    Começamos a estudar e ao invés de saciar as dúvidas, surgem outras mil! haha

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  3. Não seríamos tão singulares se não nos permitíssemos cruzar o caminho oposto. Contrariar o movimento coletivo, e trilhar o seu próprio pode parecer o mais desafiador e louco, contudo são estes os que se sobressaem, os que de alguma forma preferem mudar tudo na tentativa de um destino não tão perfeito, mas que tenha convicções daquilo que almeja e do lhe torne feliz.
    Muitos são aqueles sem identidade própria, são aqueles que preferem "irem por ali" por medo, por falta de estímulo, e acabam reprimindo o que há de melhor, escondendo-se dentro de sí.
    Todos temos vontades únicas, vontade de inúmeras coisas, mas poucos são destemidos o suficiente para abandonar o navio.

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